“Vai pra Cuba!” ou Sobre as datas festivas de abril

Por Glauber Piva

O Brasil vive dias de comemorações contraditórias e ambiguidades profundas. Três datas que dialogam com nossas aulas de história mais tradicionais insinuam a amnésia hegemônica semeada durante séculos pela narrativa dos vencedores.

Primeira data: dia 19 de abril é o “Dia do Índio”, uma ode de pseudo-reconhecimento aos nossos primeiros habitantes. Na verdade, o dia do Índio é apenas uma data definida pelos setores tradicionais para, em público, fingirem aplacar suas culpas cristãs enquanto continuam a perseguição institucional, territorial e econômica contra as nações indígenas que ainda sobrevivem.

Vale lembrar que há uma série de processos de demarcação estacionados nas gavetas da presidenta Dilma Rousseff, sempre muito mais motivada por seu apetite desenvolvimentista que por justiça étnico-social, reparação histórica ou questões ambientais. Em meio a tudo isso, o Dia do Índio é apenas uma data sintética transformada em festas escolares para consumo de pais e mães apaixonados por seus filhos de cara-pintada e cocares de cartolina.

Segunda data: dia 21 de abril é o feriado de Tiradentes, apelido de José Joaquim da Silva Xavier, enforcado em 1792 por conspirar contra a Coroa Portuguesa e tramar a independência do Brasil. Curiosamente, seu assassinato foi transformado em célebre data brasileira em 1965, já sob a ditadura militar, num movimento de valorização de “heróis” nacionais. Um dos principais líderes da chamada Inconfidência Mineira, o que se comemora atualmente não é uma luta coletiva, mas os dramas e detalhes de uma história solitária e individual.

Estratégia típica do capitalismo, a narrativa oficial ganha sentido por valorizar as histórias individuais, a ascensão e queda de um sonhador quase que solitário, esvaziando o caráter coletivo da Conjuração Mineira. Ignora-se, por exemplo, que este movimento não tinha a intenção de libertar toda a colônia brasileira, já que não havia, naquele momento, uma identidade nacional muito definida. Pretendia-se, apenas (o que não era pouco) a criação de uma República em Minas Gerais, inspirados que estavam pelas ideias iluministas da Revolução Francesa e pela independência dos Estados Unidos. Tiradentes e seus companheiros não tinham sequer a intenção clara de libertar os escravos, já que muitos dos participantes do movimento eram detentores dessa mão-de-obra.

Terceira data: 22 de abril é considerada pela historiografia oficial a data de fundação do país. Comemorada como o dia da chegada de Pedro Álvarez Cabral e suas caravelas à Bahia, o tal descobrimento do Brasil não é feriado, mas é uma data exaltada por muitos como de inauguração da era civilizada em superação à barbárie indígena.

O grande elemento que une essas três datas não é a proximidade delas no calendário, mas o fato de ecoarem a lógica dos vencedores na construção da historiografia brasileira. Os índios do “Dia do Índio” não sofrem perseguição de arrozeiros em Roraima, de sojeiros em Mato Grosso, de pecuaristas no Mato Grosso do Sul, da urbanização desenfreada de São Paulo, de madeireiros na Amazônia, do desmatamento sem-fim da Mata Atlântica, das hidrelétricas no norte e centro-oeste, do silêncio e omissão intencional de Dilma no desmantelamento da Funai e das políticas indigenistas ou do desenvolvimentismo obtuso e sem lei do capitalismo, tanto tupiniquim quanto internacional.

O Tiradentes celebrado atualmente parece desconectado das lutas coletivas contra a força colonizadora. Pior. Embora seja feriado, sua força maior parece ser a de ter lutado contra os impostos cobrados pela Coroa, o que, sem contextualização, ganha sentido na boca dos que incessantemente privilegiam a busca por menos impostos e não por mais políticas públicas e, ao mesmo tempo, ignoram a força exploratória dos impérios contemporâneos.

Já o Descobrimento do Brasil é pior, pois do título à narrativa é a celebração desenraizada dos opressores, um elogio discreto e insistente que desnaturaliza as inumeráveis etnias, linguagens e culturas deste território hoje chamado de Brasil. Assim, seguimos desconhecendo as atrocidades e crueldades que nos resultou e nos forjou como povo violento e cordial.

Não por acaso, essa dramaturgia que define datas-símbolo e consagra os vencedores como detentores da verdade e da narrativa a se reproduzir é a mesma que ecoa das bocas dos intolerantes de hoje: “Vai pra Cuba”. Esses, cheirosos e limpinhos, não suportam o cheiro e os direitos dos indígenas reais, as lutas coletivas com pauta definida (passe-livre, democratização da comunicação, reforma política ou contra o PL da terceirização etc.) ou a inclusão econômica que aumenta as filas e diminui os espaços nos aeroportos e dos bancos das universidades públicas.

Os que hoje gritam “vai pra Cuba”, de alguma maneira preferem gostar dos índios na televisão, do Tiradentes sem seus companheiros e de Cabral como grande herói. Assim, também preferem o financiamento empresarial e a assepsia de uma democracia com o mínimo de povo e o máximo de desigualdade.

Você vai pra Cuba? Eu já fui e quero voltar. Vamos?

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